A Condutora

  Depois de 5 anos sem conduzir deixo-vos a minha experiência e o antes e depois da mudança, juntamente com os motivos que penso que fizeram deixar-me de gostar de conduzir.

  Primeiramente quero deixar bem claro que o motivo pelo qual deixei de conduzir não esteve relacionado com medo de praticar esta actividade como muitas pessoas referiram.

  Vamos então começar pelos motivos que me fizeram deixar de conduzir (pelo menos os que penso terem sido, sendo que não tenho bem a noção de quais foram):

  • A luminosidade. Numa das primeiras vezes que conduzi, fui buscar a minha mãe ao trabalho com o carro dela e passei numa zona pouco iluminada onde estava uma passadeira e um senhor de cor a passar, apesar de ter os médios ligados quase não conseguia ver o senhor – não, não estive perto sequer de o atropelar;
  • Os outros condutores. As pessoas estão alteradas, andam enlatadas como sardinhas na sua rotina pouco conseguida, o que as deixa demasiado stressadas para viver em sociedade. O que todos fazemos quando o condutor da frente anda como um caracol a ver as vistas? Reclamamos para o nosso “co-piloto” ou deixamos essa reflexão para o nosso interior examinar. Que opções temos? Continuar em marcha lenta e aproveitar para ver a paisagem (coisa que as pessoas se esqueceram que existe), buzinar e incomodar os outros, ou pensarmos que se estamos com pressa das duas uma: 1. caso de vida ou de morte, ligamos os 4 piscas e passamos; 2. acordamos mais cedo/saímos de casa mais cedo e não precisamos de barafustar com os outros. Naquele dia em específico, um senhor mal humorado decidiu buzinar e barafustar, num local em que podia simplesmente fazer uma ultrapassagem. Resultado: como já disse sou uma pessoa extremamente ansiosa e não consigo ter muito controlo. O senhor passou, o carro foi abaixo e a situação repetiu-se umas cinco vezes. Para que percebam o motivo pelo qual ele foi abaixo numa ESTRADA PLANA, a minha ansiedade notasse fisicamente, neste momento foi o meu pé que deu sinais, começou a tremer e parecia que estava a sofrer dum ataque epiléptico no pé. A minha mãe acabou por levar o carro até ao seu destino;
  • Obrigação. Não existem muitas pessoas capazes de fazer algo por obrigação e estarem felizes por tal acção. Não se esqueçam, parecer feliz não é sinónimo de estar feliz;
  • O carro. O meu carro foi comprado em 2012, é um Hyundai I20 a gasóleo, um carro que não gasta praticamente nada, levezinho e que vai dificilmente abaixo. Desde 2012 o carro teve inúmeros problemas e, alguns deles, bastante dispendiosos – luzes médias, problemas de motor, problemas de embraiagem, pneus furados – o que levou a que o carro começasse a ser visto como um carro de azar (carro com mau olhado como disse a minha mãe).

  Posto isto, quais foram os motivos que me fizeram voltar a conduzir?

  • Ter sido obrigada por quem tende a tentar gerir a minha vida;
  • A stream;
  • Estar à procura de casa;
  • Ter voltado a trabalhar numa transportadora.

Antes e Depois

  Primeiro que tudo quero deixar claro que continuo sem gostar de conduzir.

Sinceramente a maior diferença que noto, para além da diferença de tempo que demorava quando usava transportes públicos, é a maior quantidade de pessoas stressadas que existem na estrada e a sua capacidade de automatização.

  Chegámos a uma fase das nossas vidas em que tudo está à distância de 1 clique. Não precisamos de nos movimentarmos para termos o que precisamos à porta de nossa casa, seja roupa, comida, electrodomésticos. Começamos a viver esta vida sedentária quando as tecnologias se apoderaram das nossas casas. Dou por mim imensas vezes a pensar “tenho pessoas aqui que são minhas amigas e estou agarrada ao telemóvel” e o mesmo funciona para os carros. Saímos de casa e fazemos o mesmo trajecto vezes sem conta para o trabalho e passadas algumas horas de volta para casa. Ficamos com um GPS automatizado ao invés dum pensamento zen constantemente até que o GPS passa a ser uma memória e não um mero trajecto.

  Passamos a não depender dum ser vivo competente que nos leve aos locais, para um “eu” independente que vai onde quer e quando quer. No entanto, sempre tive uma questão: “Será que os locais serão mais do que rotina?”. Quando utilizava transportes públicos podia mergulhar nas minhas indecisões, sonhar com os meus próximos passos, enfrentar novos desafios, observar comportamentos externos e ter um olhar constante entre o lado interior e o maravilhoso exterior duma janela, e agora? Agora o meu lado interior é um vazio e o exterior resume-se a alcatrão, fábricas, casas, carros e outras pessoas que, na sua maioria, têm esta mesma visão apesar de não se importarem tanto quanto eu.

  Se eu considero um carro próprio uma facilidade? Sim. Se acho que alcanço o estado de relaxamento que alcançava e tenho o mesmo tempo de reflexão intrapessoal? Não, nem perto disso.

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