“Agora percebeu que “vivia muito limitado”, dependia do ecrã do computador.”

Trabalho à frente dum computador, estou cá praticamente 8 horas, será que também preciso de tratamento?
Vou começar com uma frase um quanto “agressiva”:
  • Entendam que estar “à frente do computador a jogar” é uma suposição e que a partir de certa idade as pessoas têm ideias suficientemente definidas para o que de facto fazem no PC.
 Se eu estiver 8 horas à frente dum PC num “trabalho normal” a viver da infelicidade será melhor do que ter um salário não definido em algo que me satisfaz em todos os sentidos? Ambos são à frente do PC, ambos são negócios e ambos possuem retornos – sendo eles positivos ou negativos. “Mas não existe dinheiro fixo ao fim do mês”, pois não mas e se eu começar o meu próprio negócio? Vou ter um salário “normal” ao fim dos primeiros meses, um salário de “rico” nos primeiros anos?
Vamos ter em conta outro exemplo: o ordenado mínimo são 557€, os contratos vitalícios já nem vê-los, o companheirismo é praticamente inexistente, puxar a corda para o mesmo lado (mesmo que dentro da mesma empresa), o que é isso?
O outro lado da questão, aquele da empresa que podemos construir. Proudly gamer, mas não é tudo o que faço porque são relativamente poucos os jogadores que vivem meramente da capacidade de jogo.
Poucas pessoas entendem uma coisa muito simples: se eu gosto de jogar, isso não quer dizer que sempre que estou à frente dum computador o esteja a fazer. Vou dar o meu exemplo em concreto para criar um ponto de vista mais real para quem não entende o que é viver do gaming (apesar de não o conseguir fazer e também entenderão o motivo).
Comecei a jogar mais frequentemente a 13 de Agosto de 2009, se existiu um período da minha vida em que fui viciada? Sim, quando todo este mundo era uma novidade. Se perdi a noção do tempo? Sim, mas esta pergunta tem uma relatividade extrema. Imaginemos que eu adoro filmes e estou a ver um filme de 3 horas sem intervalos, será que não vou perder a noção do tempo? Será que se eu for a uma discoteca e adorar lá estar, não perco a noção do tempo? Seja qual for a acção, eu vou perder a noção do tempo caso goste do que estou a fazer.
Passados quase 10 anos continuo a jogar, MAS vejo o facto de ser gamer mais como uma realidade do que uma fantasia. O gaming não é só o facto dum grupo de pessoas estarem a jogar um jogo, existe todo um background – como um programa de televisão – fotógrafos, filmagens, organizadores de eventos, criadores de conteúdo escrito e visual (youtubers, streamers), treinadores, patrocinadores, etc e lá pelo meio existe o elenco principal – os jogadores profissionais que nos dão o “show de bola”. Numa telenovela, se não existir todo o trabalho para a concretização final também não serão os actores que o farão ou será que estou errada?
Quanto à crítica directa relativamente ao computador culpabilizado pela falta de “descobrimentos de menino” será que podemos culpabilizar o material, ou os jogos em si? Conheço diversas pessoas adultas – pais – que oferecem telemóveis e tablets aos filhos de 3 anos!!!! Como é possível culpabilizar o material pela falta de noção e educação dada pelos pais? Cada vez mais geramos robots que vivem exclusivamente de likes e visualizações e de quem é a culpa de crianças terem acesso total às tecnologias? Do material? Dos filhos de 3 anos? Do marketing televisivo? Das “necessidades” das crianças? Eu consigo compreender que, ao entrarem para a escola, é importante terem um meio de comunicação, mas será que começar por oferecer um aparelho sofisticado ao invés dum básico será a melhor opção?
“Aos 12, 13 anos descobre a internet e tudo muda”. Sim, tudo muda, a internet é o método mais directo e fácil de obter a informação que procuramos de forma rápida. A partir do momento que a internet aparece, se existe uma criança com 12, 13 anos a usá-la, pessoa essa que com essa idade não tem “controle sobre si mesmo”, não serão os pais que deveriam ter atenção tanto ao conteúdo como às horas despendidas na internet? Eu tenho 25 anos e não me cabe na cabeça dormir durante o dia e jogar a noite toda, mas isto sou eu que nunca tive esse hábito. Se tive noitadas, se fiz directas, se fui a eventos e dormi debaixo da mesa? Sim, fui, várias vezes até e, com 25 anos, ainda os frequento. Eventos esses em que conhecemos as pessoas que jogam diariamente connosco, pessoas que passam de amigos virtuais a amigos palpáveis, eventos nos quais convivemos uns com os outros, conhecemo-nos, divertimo-nos, onde não é permitido consumo de álcool, nem de droga.
“Agora percebeu que vivia muito limitado”, os limites são definidos ou por nós, ou pelos nossos progenitores, faz parte da educação que nos é incutida. Quantas pessoas vivem limitadas com a tecnologia? Existe alguma noção da quantidade de pessoas que comunica EXCLUSIVAMENTE por redes sociais? Será que ninguém vê todas as pessoas que estão sentadas e, em vez de falarem umas com as outras, estão agarradas ao telemóvel? E, ainda mais grave, estão ao pé umas das outras e “falam” via redes sociais. Será que o efeito das redes sociais, usadas por pessoas que nem sequer estão relacionadas com video-jogos, também é culpa dos mesmos?
Penso que a frase “toda a gente tinha, toda a gente jogava” exprime o facto das pessoas serem robots, sem pensamentos próprios, sem ideias definidas, sem sentimentos interiores. Será que se eu for alérgica a queijo, mas todos os meus amigos estiverem a comer e me oferecerem, eu tenho de aceitar? Presumo que sim visto que a lógica passou a ser “todos tinham, todos comiam”.
Passo agora a terminar a parte do “eu”. Passo o dia todo à frente dum computador a tratar do que quer que seja que me impinjam. Tenho um trabalho, um trabalho que me deixa infeliz durante 8 horas do meu dia. Chego a casa, local onde poderia estar a lutar pelo meu trabalho de sonho, e já estou com 80% de energia desperdiçada, ou melhor 80% de energia gasta na minha infelicidade.
Streaming é o que eu faço, faço-o há mais de 3 anos com bastantes interrupções. Para quem não sabe streaming é semelhante a um programa de televisão mas com contacto directo com os espectadores e onde a emissão se foca somente nos streamers e nas suas acções. Vivemos de doações, de subs, de números. Sim, sentar-me à frente dum computador, a fazer o que eu decidir ser melhor para o meu programa, seja isso jogar, cantar, dançar, pintar, cozinhar,  falar ou fazer o pino.
Para além do streaming, tenho bastantes ideias em progresso, incrivelmente em todas elas é necessário tempo à frente dum computador. Estou a escrever um livro, tenho este site, tiro fotografias amadoras e procuro informação no mais pequeno detalhe. No entanto, isso não significa que seja uma “sem vida”, sem objectivos. Afinal quantos de nós não tem o objectivo de chegar a um patamar de líder dentro duma empresa? Muitos, demasiados, uma grande maioria deles para: 1. afirmar ter um cargo superior; 2. ter um ordenado chorudo.
Para finalizar, estar à frente dum computador não significa que tenhamos de ser tratados porque jogar não é uma doença. “Mas é um vício”, só é um vício se o fizermos ser, mas vício ou não é muito mais saudável do que o tabaco, do que drogas, do que deambolar pelas ruas a praticar actos criminosos. Um jogador completo, caso não tenham conhecimento, tem uma vida saudável, faz exercício, tem tempo livre em que se liberta do computador porque, tal como qualquer outro trabalho, temos de nos tratar de forma correcta para ter uma prestação correcta e, no caso do gaming, é muito importante estarmos com uma mindset não preocupada para atingirmos os nossos melhores reflexos e níveis de concentração.

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